A
autora toma como base romances de autores de língua portuguesa - O ano da morte
de Ricardo Reis (1984), do português José Saramago, Nove noites (2002), do
brasileiro Bernardo Carvalho, e O outro pé da sereia (2006), do moçambicano Mia
Couto - para estudar as relações entre literatura e história na produção
literária contemporânea. A obra investiga a intertextualidade presente nos
romances, ou seja, a relação entre linguagens, uma vez que esses autores
construíram as narrativas ficcionais de suas obras recorrendo a elementos de
origem histórica, como textos literários, textos históricos, notícias
jornalísticas, fotos, cartas e depoimentos atribuídos a figuras históricas. Da
intertextualidade resultaria um plano discursivo mais amplo, que extrapola
efetivamente o campo dos textos reaproveitados pelos romances. Apoiada em
teorias literárias que discutem o modo intertextual, a autora foca sua análise
em cada um dos romances. Na obra do escritor português, permeada de releituras
de fatos da história de Portugal ocorridos em 1936 e da poesia de Ricardo Reis,
heterônomio do poeta Fernando Pessoa, a obra revela os meios pelos quais
Saramago coloca em discussão dois mitos lusitanos: Salazar e o próprio Pessoa. Em
Nove noites, que remete à passagem do etnólogo norte-americano Buell Quain pelo
Brasil e de sua morte na floresta amazônica em 1939, o livro detecta a
discussão sobre o mito do bom selvagem que revestiu o índio brasileiro. Já na
obra do moçambicano Mia Couto, cuja narrativa é entremeada de fragmentos de
escritos históricos de 1560 e de ditados populares, entre outros textos,
percebe-se a reflexão sobre a reapresentação da história da exploração do
continente africano por colonizadores portugueses e também pelos próprios
africanos.

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