Cem anos após seu nascimento, Antonin Artaud continua a perturbar
profundamente a cultura ocidental. Repudiando com a mesma indignação o
naturalismo estéril e o esteticismo dos formalistas, Artaud devota-se à
utopia de uma arte “terapêutica da alma”, onde a vida é celebrada em
ritual sagrado. Caleidoscópio de textos, sua obra — cartas e manifestos,
roteiros e projetos em constante reelaboração, que a editora
Perspectiva traz agora ao leitor brasileiro — não pode ser vista como um
ensaio datado na história da arte. A presente antologia, ladeando suas
poesias e seus depoimentos, sua técnica e sua linguagem, revela um
artista coerente no múltiplo: reiventa-se aqui o teatro e o cinema,
sonha-se a partir da pintura e da poesia fecundos presságios de
demiurgo. A ferida da crueldade artaudiana permanece aberta. Sua
linguagem inaugural, hieróglifo vivo a ser decifrado, semente dos happennings
e das criações coletivas, de Grotowski e de Robert Wilson, convida a um
percurso ainda arriscado pelos obscuros caminhos da criação.
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