É de velha usança, entre gente negra, reunir-se
na chota, à beirinha do fogo, ouvindo e contando, nos seus
longos vagares, lendas antigas, embaladas pela tradição. Em geral, missão de narrador, compete aos mais idosos, - mais
seguros da verdade e da experiência... Uma lenda, por mais velhinha que seja, é sempre assunto novo. A lenda encerra principio de verdade, - uma verdade envolvida na plumagem
da fantasia. A lenda é bisturi delicado: lentamente, vai retalhando acções
más por má gente praticadas, terminando por um grito de
protesto em favor do bem. Ouvir lendas de um povo é escutar muito de sua alma. Por isso, eu entrei na chota, sentei-me junto do fogo, e vivi um pouco
da alma da gente negra, - gente mística, sonhante, dolente... Ouvi o ciciar de seus pensamentos calmos, envolvidos numa ânsia
de bem; escutei suas palavras amargas, reprovando todo mal, e ficou-me,
prisioneiro na lembrança, o alevantado instinto de justiça
que alimenta esta raça descuidosa. Lendas, - espelho de gentes, - confissões de almas num murmurar
brando... Sôbre a verdade, - garra presa a duro rochedo, - esvoaça
um bando de fantasias...
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