Nos volumes anteriores sentimos certa facilidade em relacionar os contos de determinadas épocas a uma ou outra corrente, o que se refletia nos respectivos subtítulos. Porém, quanto mais nos aproximamos da nossa época, mais complexa se torna a operação: ao lado das tendências novas, sobrevivem as antigas, entretecendo-se, fundindo-se, muitas vezes dentro do mesmo indivíduo. Assim, o russo Gorki, reverenciado como uma das figuras de proa do realismo (como se vê na pungente novela “Vinte e seis e uma”), é, ao mesmo tempo, o romântico autor apaixonado da linda e brutal história de “O cã e seu filho”. Ou então, Selma Lagerlöf, a grande narradora sueca, compenetrada sempre da mesma inspiração espiritualista, apresenta-nos pequenos esquetes aldeões, como “Os dois irmãos”, e episódios místicos, como “O ninho das alvéloas”. Os ingleses Thomas Hardy e Rudyard Kipling, aliás tão diferentes, constroem seus relatos, de épico sabor, com peculiaridades regionais minuciosamente observadas e uma participação patética. Nos seus contos, Henry James leva a análise psicológica ao extremo. Em Conan Doyle identificamos com prazer a fonte original da caudalosa literatura policial de hoje. As páginas humorísticas dos franceses Courteline e Allais são, de certa maneira, precursoras da literatura do absurdo, enquanto colegas seus, o provençal Paul Arène, o londrino Jerome K. Jerome e o nosso Artur Azevedo, cultivam a anedota com modesto sorriso, e o espanhol Clarín envereda pelo caminho da literatura de antecipação satírica. O português Fialho de Almeida representa o regionalismo sentimental; o francês Léon Bloy maneja a variante cruel do conto. Todos esses contos ressaem por alguma qualidade especial. Representativos de seus autores, eles o são também das variantes do gênero, mas na fase em que elas confluem e se mesclam, aproveitando os achados do passado e abrindo perspectivas sobre o futuro.
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