
A dissertação de mestrado intitulada Relevância da dimensão cultural na
escolarização de crianças negras discorre sobre iniciativas de educação
escolar surgidas em contextos de afirmação de valores existenciais
afro-brasileiros e persegue os objetivos de (a) investigar as bases
teóricas e práticas escolares de pedagogias estruturadas a partir de
reposições e reelaborações culturais negras na diáspora e (b) discutir a
relação entre cultura do educando e cultura escolar presente nestas
concepções educativas. Partimos da hipótese que a presença da história e
cultura afro-brasileira no currículo escolar atua como um fator de
favorecimento do processo de escolarização das crianças negras, as quais
vários estudos apontam como mais vulneráveis a serem colocadas em
situação de fracasso e evasão escolar e suscetíveis de sofrerem
preconceito e discriminação étnico-racial. Ao final do texto concluímos
com outra hipótese, não excludente da primeira: a presença da história e
cultura afro-brasileira como instrumento do processo de escolarização
favorece a experiência da educação escolar de crianças negras; por outro
lado, tomar a história e cultura negra como fundamento da escolarização
exige a emergência de outra cultura escolar, pois uma transformação
nesse nível modifica não somente os conteúdos pedagógicos e práticas de
ensino, mas o próprio entendimento do que seja a noção de Escola. Fruto
de um projeto de pesquisa executado a partir de março de 2008, para
chegarmos a esses resultados realizamos pesquisa documental,
bibliográfica e de campo sobre o Projeto Político Pedagógico Irê Ayó
(Caminho da alegria em iorubá), em atividade na Escola Municipal Eugênia
Anna dos Santos, em Salvador-BA, desde 1999, instituição situada no
terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá. O histórico de implantação
desse projeto nos remeteu à Mini Comunidade Obá Biyi, outra iniciativa
de educação escolar ocorrida no terreiro entre 1978 e 1986. Para alinhar
as duas iniciativas tomamos o adinkra sankofa como procedimento
metodológico, ou seja, procuramos desvelar os legados construídos por
ambas para refletir sobre políticas públicas educacionais específicas
para as crianças negras no futuro. Destarte, adotamos como critério de
avaliação para um estudo da prática cotidiana escolar três dimensões
inter-relacionadas, (I) a dimensão institucional ou organizacional; (II)
a instrucional ou pedagógica; e (III) a sociopolítica ou cultural, como
propostas por Marli André. Encontramos suporte teórico para diferenciar
estrategicamente escolarização e educação em Mwalimu Shujaa e
construímos nosso referencial sobre cultura negra reposta na diáspora a
partir de Mestre Didi, Muniz Sodré e Juana Santos. Estabelecemos a
contribuição do ativismo negro ao pensamento educacional sobre ideias de
Nilma Gomes e Petronilha Silva e argumentamos sobre a necessidade de um
ensino culturalmente relevante para crianças negras com Gloria
Ladson-Billings. Avançamos para compreender o eurocentrismo do
pensamento pedagógico a partir de Narcimária Luz e Marco Aurélio Luz e,
por fim, a partir de Vanda Machado pudemos repensar a utopia de
escolarizar crianças negras a partir da afirmação de seus valores
existenciais. Procuramos compreender o embate que daí advêm, entre
escolarização e cultura afro-brasileira, com a noção de didática da
dupla consciência, inspirada no o pensamento de W. E.B Du Bois.
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