Como poderia ter existido no Brasil, durante a Segunda Guerra
Mundial, um jornal que propagandeava o regime nazista, uma vez que o
país é formado por uma população miscigenada, distante dos princípios de
pureza racial defendidos por Hitler? Que tipo de apoio o periódico
teria prestado aos alemães? Que motivos levaram seu proprietário a
aderir ao nazismo? Estas são algumas das questões que motivaram o historiador João
Arthur Ciciliato Franzolin a pesquisar a trajetória do jornal Meio Dia,
que circulou de 1939 a 1942, e seu cirador, o escritor Joaquim Inojosa. Inojosa foi figura conhecida nos meios literários por manter
vínculos com alguns dos protagonistas da Semana de Arte Moderna de 1922 e
por se tornar um divulgador do modernismo no Nordeste do Brasil, a
começar por sua terra natal, Pernambuco. O Meio Dia surgiu no contexto
do Estado Novo. Desde o seu início exaltou o regime e Getúlio Vargas e
passou a receber dinheiro da agência de notícias alemã Transocean e da
Embaixada da Alemanha, apoio que o levou a estampar propaganda e textos
glorificadores do Terceiro Reich e suas conquistas na guerra. No entanto, após análise aprofundada, o autor identificou fases
distintas na trajetória do periódico: em 1939, o jornal defendeu o
pacifismo e os países democráticos; entre 1940 e 1941 aderiu
entusiasmadamente ao nazismo; por fim, em 1942, passou a apoiar
abertamente a declaração de guerra do Brasil ao Eixo, uma vez que
enfrentava a ira da população carioca e o cerco do governo getulista. "É
patente que a orientação política do jornal flutuou em função do
momento, e que a opção pelos Aliados só se deu quando o periódico já
definhava e não mais podia contar com o apoio dos alemães", escreve o
autor. Após a Segunda Guerra, Inojosa procurou, brevemente, justificar a
sua postura diante do jornal. No entanto, o periódico teria significado
um peso para seu criador, que procurou maquiar a história em sua
biografia. Franzolin conclui: "Os efeitos de sua aliança com os alemães,
sentidos na sua trajetória posterior ao Meio-Dia, poderiam ser
exemplificados por uma frase, atribuída a Goethe, publicada [no jornal]
em setembro de 1941: 'Os fantasmas que chamei, não me posso livrar mais
deles!'".

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