O trabalho investiga o surgimento e as
transformações operadas pela vanguarda artística brasileira da noção de
"arte ambiental", formulada a partir de 1966 por Hélio Oiticica -
como parte da organização de uma cultura de resistência frente ao contexto
político-social brasileiro inaugurado pelo golpe militar de 1964. No texto
"Programa Ambiental" (1966), Hélio reconfigurava a noção de
"participação do espectador" que havia surgido dentro do movimento
neoconcreto (1957-1961) em chave realista, mediante a noção de
"ambientação", ligada à problemática político-social mais ampla.
Central nesta concepção seria a categoria de objeto: um "sinal dentro do
ambiente" e não mais como uma "obra de arte acabada", objeto da
contemplação do público. O "objeto" seria entendido, a partir de
então, como um ativador de ações - cabendo, pois, ao artista, como o construtor
desse objeto, a função de propositor. No "Esquema Geral da Nova
Objetividade" (1967), tais questões serão abordadas por Oiticica como
parte de uma problemática coletiva da vanguarda artística brasileira - dentro
da qual, segundo H.O., a obra Nota sobre a Morte Imprevista (1965) de Antonio
Dias teria atuado como um "turning point decisivo". A pesquisa traça
os pontos de inflexão e as diferentes formulações que o "programa
ambiental" recebeu desde sua primeira formulação teórica em 1966 até a edição
do álbum Trama (1977) de Antonio Dias. Assim, no primeiro capítulo, a pesquisa
procura demonstrar como Nota sobre a Morte Imprevista de Antonio Dias e os
Parangolés e Bólides de Oiticica articulam de modo problematizante o
"ambiental" e a noção correlata de "participação do
espectador". A seguir, o capítulo 2 descreve a rearticulação do
"ambiental" nas proposições reunidas por Antonio Dias no Project-book
- 10 plans for open projects, para o qual Oiticica formula teoricamente os
conceitos de enigmagem e probjeto. O capítulo 3 descreve o desenvolvimento da
contraditória noção de modelo na série The Illustration of Art (de Dias), na
qual a dimensão "ambiental" passa refletir criticamente sobre a
dinâmica econômica e os interesses financeiros que permeiam a produção artística
- dinâmica e interesses que, com o "milagre econômico" (1967-1973)
levado a cabo pela política econômica do regime, passam a ditar cada vez mais a
produção artística. O capítulo 4 aborda a edição do álbum Trama (1977),
produzido por Antonio Dias, dentro do contexto da abertura "lenta, segura
e gradual" do regime. Em Trama surge um novo uso do modelo reprodutivo e
modular, para além daquele fornecido por The Illustration of Art, que procura
dar ao espectador a possibilidade de uma visada retrospectiva e totalizadora.
Trama adotaria a formulação da arte ambiental de Hélio Oiticica como modelo
programático, mas como um programa impossível de ser seguido - visto que a obra
realiza o "ambiental" apenas graficamente (e abstratamente), como
modelo para a reflexão e crítica, que, num só movimento, propõe e frustra a
"participação do espectador".
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