A reunião de africanos, escravos e libertos, em grupos étnicos foi uma
das características das formas de organização e de sociabilidades dessa
população em várias regiões do Brasil. A princípio, essas categorias
étnicas foram criadas pelos indivíduos que lidavam com o comércio de
escravos, quais sejam, traficantes, comerciantes e compradores,
carregando consigo atributos físicos, morais e características culturais
que tinham como objetivo facilitar o tráfico. Mais tarde, essa
distinção étnica também foi incorporada pelos próprios africanos,
escravos e libertos, como um elemento da sua própria organização. Esta
dissertação tem por objetivo estudar o processo de redefinição dos
grupos étnicos e a construção das identidades africanas em torno de
alguns espaços de sociabilidade na cidade de São Paulo, durante a
primeira metade do século XIX. Pretende-se discutir, baseando-se no
conceito de grupo étnico elaborado pelo antropólogo Fredrik Barth, as
formas de atribuição e de identificação desses grupos por agentes
externos, como a Igreja Católica e os proprietários de escravos. Esse
conceito também tem como pressuposto a incorporação pelos próprios
africanos, que passaram a se identificar com esses grupos éticos,
direcionando suas formas de organização e de sociabilidade, sobretudo
por meio da associação em irmandades religiosas, reunião em batuques,
capoeiras, danças. Essa identificação a determinados grupos levava em
conta características que consideravam em comum como a língua, a
ascendência e a visão de mundo. A intenção é perceber como a
incorporação a determinados grupos étnicos direcionou as formas de
organização, as manifestações de suas tradições por meio de aspectos
culturais, a relação com os diferentes grupos étnicos e com outras
camadas da sociedade.
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