Durante o mês de Março os sindicatos, intuindo que a raiva operária
estava em crescimento, começam a convocar greves sincronizadas de poucas
horas, que não tinham qualquer impacto sobre o patronato e davam aos
operários apenas uma incómoda sensação de frustração. As coisas tinham
de mudar, e velozmente. Na edição de Abril de “Rosso”, na altura
ainda o “jornal quinzenal do grupo Gramsci” de Milão, os operários das
oficinas da Mirafiori relatam que tudo começou num dia em que fizeram
uma assembleia sem os “bonzos” do sindicato. Os operários sentaram-se à
mesa da cantina e começaram a falar entre eles, percebendo que todos
concordavam que as formas de luta levadas a cabo pelos delegados dos
conselhos de fábrica eram insuficientes. Mas descobrem também, graças
aos mais jovens entre eles, que existem outras maneiras de estarem
juntos: não burocratizadas, mais vivas, mais belas e das quais se sai
mais forte. Decide-se mudar de sistema. Como em 1969, começam a ser
vistas manifestações no interior das instalações da fábrica, agora
lideradas por operários mais jovens que, com o rosto coberto com lenços
vermelhos, atacam os chefes, os seguranças, os fura-greves e os espias,
destroem a maquinaria, sabotam os produtos acabados. Vão todos em
cortejo à reunião seguinte do conselho de fábrica e os delegados
sindicais receiam seriamente ser agredidos: os operários interrompem a
reunião e dizem “basta”. A 23 de Março, durante a enésima greve com
manifestação interna, começa a ser preparado o plano de ataque: bloqueio
das mercadorias em saída, piquetes nas portas de entrada da fábrica e
grupos móveis de operários que controlam todos os departamentos. A 26
começa o primeiro bloqueio de uma hora, mas no dia seguinte a coisa
torna-se maior, corre a informação nos departamentos, nos refeitórios,
por todo o lado. Escondem-se as bicicletas dos chefes e dos fura-greves e
organizam-se estafetas entre as diversas portas, sentinelas vermelhas
sobem aos muros da fábrica, os telefones dos seguranças são sequestrados
e utilizados para trocar informações em tempo real. A organização da
luta transforma-se, de um fetiche adorado pelos mais variados inventores
de “consciências externas” do proletariado, em algo que nasce no
momento da ação e dentro desta.
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