O presente livro tem por objeto de estudo o romance O Ateneu, de Raul Pompéia, publicado em 1888 em folhetim pela Gazeta de Notícias e,
meses mais tarde, em volume, pela tipografia do mesmo jornal.
Estuda-seaquio processo narrativo da obra a partir de uma discussão
inicial de sua recepção crítica, em que se observam três tendências
interpretativas distintas: uma primeira de viés biográfico, bastante
comum até a década de 1940; uma segunda, de viés social, iniciada logo
após a anterior, e continuada ainda hoje; e uma última, de viés
revisionista, mais atual, pautada na análise de aspectos até então
considerados acessórios pela crítica. Dentre estes aspectos, está o
tratamento cada vez mais aprofundado da narração autodiegética e do
memorialismo latente já no subtítulo do romance – “Crônica de saudades”.
Para tanto, discute-se a seguir a natureza teórica da narrativa de
memórias, levantando-se diversos textos de teoria da narrativa como
embasamento teórico da exposição. Propõe-se, assim, o uso de uma
terminologia que busca categorizar em três grandes grupos as narrativas
de memórias, de acordo com sua orientação mais voltada para o passado da
ação – “narrativa retrospectiva” –, para o presente da narração –
“narrativa presentificativa” – ou para o processo de leitura e recepção
das memórias – “narrativa prospectiva”. A análise posterior de diversos
elementos da narração d’O Ateneu chega à conclusão de que o
romance de Pompéia representa um exemplo acabado de “narrativa
prospectiva”, em que o narrador manipula a infância vivida no internato
para fazer-se de vítima do sistema, e, assim, reverter a lógica de
opressão a que fora submetidono Ateneu.
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