É costume dizer-se que não se pode compreender o século XVI português
sem que se leiam Os Lusíadas, uma vez que, se aquele século fez o poema,
o poema de igual modo (re)fez o século, com o quê um não seria sem o
outro. Decerto, não se pode dizer isso de muitos livros sem que se
esteja a incorrer em exagero. Mas não estará longe da verdade quem
também o disser acerca da Peregrinação. Com efeito, a quantidade de matéria exposta e a multiplicidade de
ângulos pela qual ela é aí tratada faz da narrativa de Mendes Pinto um
dos mais amplos e impressionantes painéis, de quantos se escreveram, dos
sonhos, desejos, sucessos e fracassos daquele século que, para
Portugal, começou em glória e acabou em desgraça. Portanto, tal como se
deu em Os Lusíadas, foi necessário esperar pelo século XVI para que a
Peregrinação se fizesse. Em contrapartida, do mesmo modo foi necessário
esperar pela Peregrinação a fim de que o século XVI adquirisse a forma
que, só com ela, passou a apresentar.
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