Em Reflexões sobre o racismo, Sartre ressaltava o fato de que os negros tinham-se mostrado capazes de expressar sua problemática existencial em poesia, enquanto os operários ainda não tinham correspondido ao mesmo desafio. Lamentava, frisando que somente os que sofrem na carne um problema podem expressar com os devidos matizes os seus sentimentos. O mais seria paternalista e falso, portanto, ou, na melhor das hipóteses, diluído, por não revelar uma vivência pessoal do autor. Essa posição serve para caracterizar as coisas nos estudos literários por um prisma redutivo. Literatura negra seria apenas feita por negros. A literatura feita por brancos sobre negros seria descartada, mesmo que fosse pungente e forte. Sectarismo à parte, uma restrição como essa seria operacional em alguns sentidos. Primeiro, evitaria que certos escritores de pouca monta e caráter pongassem no movimento negro para haurir prestígio por alugarem a pena a uma causa simpática, esses haveriam de, no passado, terem-se empenhado em outras searas que lhe tivessem rendido polpudos dividendos de glória – há os que até fizeram poemas em louvor à Transamazônica. Agora, no Brasil, está na moda o negro, dá Ibope e celebrização. A temática negra não é mais apenas assunto para a folclorização; campo reles de pesquisa barata que só dá trabalho. Agora a coisa está boa.
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