
As tentativas de apagar de nossas memórias os acontecimentos
relacionados à ditadura militar no Brasil produziram uma sensação de
apatia e até de indiferença nas novas gerações. Pouco se conhece sobre
os porões da ditadura. Os ativistas políticos da oposição clandestina
foram vistos como inimigos da ordem pública e apenas um ou outro
personagem se tornou reconhecido, mesmo que tardiamente. Além disso, a
velocidade do tempo na vida contemporânea e a circulação frenética de
informações aumentaram ainda mais a distância desse passado recente. No
entanto, as práticas de tortura não podem ser associadas apenas a um
tempo já findo. Os corpos e as almas continuam a ser violados mesmo nos
dias de hoje, demonstrando que não podemos considerar os
microfascismos como superados. A publicação deste livro com histórias
de meninos e meninas que foram marcados pela ditadura militar nos
permite este duplo sentido: de um lado, reavivar a memória e, de outro,
chamar a atenção para a necessidade de reafirmação constante dos
valores em Direitos Humanos. Neste livro, são contadas histórias de
adolescentes ativistas políticos, bem como o cotidiano de uma infância e
adolescência modificadas radicalmente pela opção de seus pais em
resistir à ditadura militar. Não se trata aqui de uma contabilidade
ressentida de lamentos. Mas de mostrar que, nas trajetórias de vida, é
possível entrever uma força positiva que apela para a necessária
digestão da experiência. Como diz uma das canções lembradas no livro:
“Perdoem por tantos perigos, perdoem a falta de abrigo, perdoem a falta
de amigos, os dias eram assim...”
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