Escrita em 1650, por D. Francisco Manuel
de Melo – fidalgo, escritor, político e herói militar português – a
obra Carta de Guia de Casados, apresenta-se sobretudo um texto de auto
ajuda, cheia de conselhos práticos para o quotidiano de um casal do
século XVII recém casado, e que versa temas tão diversos como o governo
económico da casa, até ao relacionamento com os criados. Mas é sobretudo
nas sugestões em relação do trato que o homem deve ter para com a
esposa que tornaram a obra famosa e controversa e objeto de debate ao
longo de vários séculos. Vista hoje
em dia como uma obra cheia de pontos de vista grotescos/cómicos, no seu
contexto histórico ela oferece-nos um fresco da mentalidade da época,
fundamentado na moral cristã da altura que atribuía à mulher uma função
subalterna à do marido, cuja liberdade geográfica se devia limitar
às quatro paredes da casa. Para D.
Francisco Manuel de Melo, as mulheres, mais do que companheiras,
eram sobretudo propriedade pessoal do marido e devido à sua condição
“frágil” tanto deviam ser protegidas a todo o custo, como ser “educadas”
e “corrigidas” das suas frivolidades e inconstâncias. Deviam ser também
preferencialmente incultas pois disso dependia muito a felicidade do
casamento. Há inclusive um ditado português antigo que foi retirado
diretamente desta obra e que espelha bem esse ponto de vista: “Que Deus me guarde de mula que faz «him» e de mulher que sabe latim“.

Nenhum comentário:
Postar um comentário