A República Inacabada, é um pequeno mas importante volume de Raymundo
Faoro. Organizado e prefaciado por Fábio Konder Comparato, o livro repõe
em circulação dois dos mais significativos ensaios de um dos maiores
pensadores da política nacional (anteriormente publicados em volumes
separados, e relativamente pouco conhecidos, apesar de sua relevância e
atualidade): “Existe um pensamento político brasileiro?” (1994) e
“Assembléia Constituinte – A legitimidade resgatada”, (1981). O volume
se completa com o artigo “Sérgio Buarque de Holanda: analista das
instituições brasileiras” (1998). Raymundo Faoro é o autor de um dos
livros fundamentais do pensamento político brasileiro, Os donos do poder
– em que é explicitada, já a partir do título, a relação
patrimonialista das classes dominantes brasileiras com o Estado,
contínua desde os tempos coloniais. Os textos do presente volume
desenvolvem as teses do livro. É um erro de julgamento considerar o
Estado brasileiro historicamente fracassado. Pois para crer nisto é
preciso partir da idéia de que o Estado brasileiro foi criado e mantido a
fim de cumprir as funções do moderno Estado liberal-democrático.
Umbilicalmente ligado a uma sociedade civil robusta, que municia seus
quadros e os controla, que o monetariza através dos impostos e recebe em
troca os serviços essenciais de uma sociedade complexa, como segurança,
infra-estrutura, educação, sistema de saúde, justiça e demais serviços
públicos. Conforme já enunciava José Bonifácio de Andrada e Silva no
início do século XIX, “querem governar o Brasil independente como o
Brasil colônia”: daí se explica, entre outras coisas, a Independência
não ter vindo acompanhada do fim da escravidão, que demoraria mais três
gerações. Em conseqüência, o país nasce com grande parte de sua
população absolutamente vazia de qualquer dimensão de cidadania (e com
outra parte com uma dimensão mínima). Além disso, os aparelhos estatais
provinciais seriam cooptados pelos poderosos locais, origem de nossa
histórica oligarquia – e de nosso oligarquismo. Raymundo Faoro demonstra
como a previsão de Bonifácio se concretizou, com o Estado sempre
privatizado por grupos que dele se servem para defender seus interesses.
O resto é conseqüência. Assim, como sintetizam os inter-títulos de
Comparato no “Prefácio”, tivemos, historicamente, uma república
privatista, uma democracia sem povo, um liberalismo de fachada e um
constitucionalismo ornamental (por exemplo, quanto a este último,
constituições existem, fundamentalmente, para controlar e limitar o
poder político; na história política brasileira, porém, essa função
essencial das constituições jamais foi implementada: a idéia que
prevaleceu, com as variações devidas ao momento político mundial, foi a
de atribuir à Constituição um papel legitimador do poder político já
existente).
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