Aleijadinho existiu? De acordo com o livro Aleijadinho e o aeroplano, de
Guiomar de Grammont, a resposta é “não”. Aleijadinho não “existiu”.
Quem existiu foi Antônio Francisco Lisboa, escultor pobre, que viveu em
Vila Rica no século XVIII e teve uma vida muito mais prosaica do que a
do mito consagrado na história. Existiram diversos “Aleijadinhos”,
inventados à medida que se deu a construção nacionalista de uma imagem
da “arte brasileira” em diferentes contextos, do século XVIII até hoje.
Cada momento criou o seu Aleijadinho em diversos gêneros literários e
científicos, segundo a autora, que é doutora em barroco mineiro e
diretora do Instituto de Filosofia Artes e Cultura da Universidade
Federal de Ouro Preto. Ao analisar os documentos reunidos sobre a história do artífice, a
autora chega a conclusões absolutamente inéditas: não há prova de que
Antônio Francisco Lisboa tenha sido filho de Manuel Francisco Lisboa ou
de que ele tenha sido arquiteto, como afirmam os críticos que lhe
atribuem o risco de diversas obras arquitetônicas, entre outros pontos
polêmicos. Guiomar mostra como o mito foi reapropriado e tomado como
evidência histórica, sem contestação, em diversos programas da história
do pensamento sobre artes e letras no Brasil. Nos séculos XIX e XX,
vários discursos interpretaram as obras atribuídas ao Aleijadinho a
partir de noções raciais, ambientais, psicológicas, artísticas e
políticas não existentes no tempo em que o personagem viveu.
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