Torquato Neto era um blogueiro dos anos 70. Escrevia a coluna “Geléia Geral” no jornal Última Hora, onde cobria a vida cultural brasileira (especialmente do Rio), com foco na música, no cinema e num pouco de literatura. Do teatro ele não gostava muito, mas anunciava as novidades, assim como uma ou outra notinha sobre artes plásticas. É legal acompanhar dia após dia, na sua “Geléia Geral”, a história da música brasileira (e mundial) nos ricos anos 71 e 72. Torquato, saudosista, reclamava que a MPB estava muito parada. Pra quem lê hoje soa como ironia. Eram os anos de “Fa-Tal” da Gal (Com “Vapor Barato” e “Pérola Negra”), “Transa” o (disco em inglês) cult do Caetano, “Construção” do Chico Buarque (com a faixa título mais “Cotidiano”, “Deus lhe pague”, “Valsinha” e meia dúzia de clássicos) e o discão do rei Roberto Carlos que trazia “Detalhes”, “Debaixo dos Caracói dos seus cabelos” e “Como dois e dois”. Lá fora, John Lennon estava de música nova: Imagine. E Torquato avisava a galera pra se ligar em uma banda inglesa que estava amadurecendo bem; o Pink Floyd. (Ainda dois anos distante de lançar seu mega-sucesso “The Dark Side of the Moon”). E os Novos Baianos começavam a se tornar íntimos de João Gilberto. (influência que daria origem ao clássico “Acabou Chorare”). Os últimos dias de paupéria” (organizado por Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte) foi publicado postumamente. Torquato estava preparando um livro ( que devia chamar-se
“Do lado de dentro”) quando se suicidou com gás de cozinha no dia do seu
aniversário de 28 anos. Morreu sem publicar nenhum livrinho em vida.
Deixou suas crônicas musicais, suas letras (“Geléia Geral” e “Louvação”
com Gil, mais uma dezena com Caetano, Jards Macalé, Edu Lobo e a
parceria póstuma de “Go Back” com os Titãs), algumas cartas (numa das
quais conta como fumou haxixe com JIMI HENDRIX) e poesias – era poeta
tropicalista, amigos dos concretistas e admirador da poesia marginal de
Chacal, então estreante. Também dirigiu e atuou em alguns filmes Super
8. Sua empolgação com música-cinema-literatura não o segurou na vida,
deprimido com a falta de liberdade da ditadura e a falta de bom gosto da
esquerda. Nasceu no tempo errado. Inspirou Caetano numa de suas
melhores letras; “Cajuína”, do álbum “Cinema Transcendental” (1979).
Aquela que começa existencialista assim: “Existirmos, a que será que se destina?”.
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