O ponto de partida da dúvida é sempre uma fé. Uma fé (uma “certeza”) é o
estado de espírito anterior à dúvida. Com efeito, a fé é o estado
primordial do espírito. O espírito “ingênuo” e “inocente” crê. Ele tem
“boa fé”. A dúvida acaba com a ingenuidade e inocência do espírito e,
embora possa produzir uma fé nova e melhor, esta não mais será “boa”.
[...] A dúvida pode ser, portanto, concebida como uma procura de certeza
que começa por destruir a certeza autêntica para produzir certeza
inautêntica. A dúvida é absurda. Surge, portanto, a pergunta: “por que
duvido?” Esta pergunta é mais fundamental que a outra: “de que duvido?”
Trata-se, com efeito, do último passo do método cartesiano, a saber:
trata-se de duvidar da dúvida. Trata-se, em outras palavras, de duvidar
da autenticidade da dúvida em si. A pergunta “por que duvido?” implica a
outra: “duvido mesmo?”
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