Dizer que esta obra se me impôs como um dever seria pretensioso, mas o foi, pelo menos, em virtude de uma exigência cada vez mais constrangedora. Sua tese é simples e, em certos meios, banal: a de que filosofia, de acordo com o grande nome que recebeu, constitui uma ―sabedoria‖ indispensável aos seres racionais para coordenar as diversas atividades do homem, mas que não atinge um saber propriamente dito, provido das garantias e dos modos de controle que caracterizam o que se denomina ―conhecimento‖. Mas se vivi confortavelmente com tal crença, como todos os que permanecem à margem da filosofia, mesmo sendo seduzidos por ela, pareceu-me que se tornava necessário justificar explicitamente e mesmo proclamar essa tese, em vista dos abusos cotidianos aos quais seu não reconhecimento conduz. No término de uma carreira de psicólogo e de epistemologista, durante a qual mantive as melhores relações com os filósofos que me honraram muitas vezes com uma amizade e confiança cujo alto preço bem conheço, 1 vivi quase dia após dia os conflitos que retardam o desenvolvimento de disciplinas que pretendem ser científicas. Cheguei à convicção de que, sob o conjunto extremamente complexo de fatores individuais ou coletivos, universitários ou ideológicos, epistemológicos ou morais, históricos ou atuais, etc., que intervêm em cada um desses conflitos, se reencontra em definitivo sempre o mesmo problema e sob formas que me parecem decorrer da simples honestidade intelectual: em que condições se tem o direito de falar de conhecimento e como salvaguardá-lo contra os perigos interiores e exteriores que não cessam de ameaçá-lo? Ora, quer se trate de tentações interiores ou de coações sociais de toda espécie, esses perigos perfilam-se todos em torno de uma mesma fronteira, surpreendentemente móvel ao longo das idades e das gerações, mas não menos essencial para o futuro do saber: aquela que separa a verificação da especulação.
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