Estamos a
doze anos do final do século XX. Vivemos num tempo atônito que ao
debruçar-se sobre si próprio descobre que os seus pés são um
cruzamento de sombras, sombras que vêm do passado que ora pensamos já
não sermos, ora pensamos não termos ainda deixado de ser, sombras
que vêm do futuro que ora pensamos já sermos, ora pensamos nunca
virmos a ser. Quando, ao procurarmos analisar a situação presente das
ciências no seu conjunto, olhamos para o passado a primeira imagem é
talvez a de que os progressos científicos dos últimos trinta anos são
de tal ordem dramáticos que os séculos que nos precederam desde o
século XVI, onde todos nós, cientistas modernos, nascemos, até ao
próprio século XIX não são mais que uma pré-história longínqua. Mas
se fecharmos os olhos e os voltarmos a abrir, verificamos com
surpresa que os grandes cientistas que estabeleceram e mapearam o
campo teórico em que ainda hoje nos movemos viveram ou trabalharam entre
o século XVIII e os primeiros vinte anos do século XX, de Adam Smith
e Ricardo a Lavoisier e Darwin, de Marx e Durkheim a Max Weber e
Pareto, de Humboldt e Planck a Poincaré e Einstein. E de tal modo é
assim que é possível dizer que em termos científicos vivemos ainda no
século XIX e que o século XX ainda não começou, nem talvez comece
antes de terminar. E se, em vez de no passado, centrarmos o nosso
olhar no futuro, do mesmo modo duas imagens contraditórias nos ocorrem
alternadamente. Por um lado, as potencialidades da tradução
tecnológica dos conhecimentos acumulados fazem-nos crer no limiar de
uma sociedade de comunicação e interativa libertada das carências e
inseguranças que ainda hoje compõem os dias de muitos de nós: o
século XXI a começar antes de começar. Por outro lado, uma reflexão
cada vez mais aprofundada sobre os limites do rigor científico combinada
com os perigos cada vez mais verossímeis da catástrofe ecológica ou
da guerra nuclear fazem-nos temer que o século XXI termine antes de
começar.
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