O trabalho busca analisar a apropriação que dois romances
históricos brasileiros contemporâneos fazem dos mitos literários
hispânicos do pícaro e de Dom Juan: O Chalaça (1994), de José Roberto
Torero e O feitiço da ilha do Pavão (1997), de João Ubaldo Ribeiro.
Segundo o autor, ambos privilegiam uma releitura crítica da história
oficial, especialmente por meio de recursos como a carnavalização, a
ironia, a intertextualidade e a metaficção. Na abordagem do romance de Torero, o autor discute as relações que o
livro estabelece com a picaresca espanhola clássica, a partir de um jogo
de máscaras e níveis narrativos, uma maneira engenhosa de fazer
reemergir um personagem (o Chalaça) que teve grande importância política
no Primeiro Reinado, mas foi soterrado pela história oficial como um
mero alcoviteiro a serviço de Dom Pedro I. No romance de João Ubaldo Ribeiro, é posto em debate o processo pelo
qual o texto, ao dialogar com as narrativas do realismo mágico, reitera o
mito de Dom Juan em uma imaginária ilha do Pavão, localizada no
Recôncavo Baiano e eivada de conflitos entre o grupo principal de
personagens (e seus ideais de liberdade e igualdade) e as instituições
oficiais no período colonial, como a Igreja e o Estado, que tentam impor
as mais diversas formas de dominação. Para o autor, esses dois romances, além de se aproximarem pela via da
apropriação mítica e da intertextualidade, ainda utilizam anti-heróis
como referências de um espaço social excêntrico, contrário às normas
instituídas, o que também iria ao encontro de aspectos mais tipicamente
desconstrucionistas do romance histórico contemporâneo.
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