Uma das maneiras bastante recorrente de se apresentar o começo da “civilização” egípcia é aquela que reconhece como fato culminante, desse processo histórico, a unificação do Estado faraônico. O testemunho desse fato culminante seria uma série de objetos trazidos à luz ao final do século XIX, entre os quais se encontram a célebre Paleta de Narmer, a maça do Rei Escorpião, a cabeça coroada de Hórus, encontradas no sítio arqueológico de Hierakonpolis (Fig. 01). Como a estimativa é que tais objetos tenham sido produzidos por volta de 3100 a.C., esse esquema explicativo. Tal esquema explicativo fundamentava-se naquele modelo teórico, evolucionista e eurocêntrico, muito em voga no séc. XIX e parte do séc. XX, que dividia o mundo entre “civilizações” e “culturas”. As sociedades “primitivas” seriam aquelas dotadas apenas de “cultura”, mas não de “civilização”. Seriam aqueles grupos humanos sem tecnologia transformadora do mundo, sem economia de mercado (apenas de subsistência), sem divisão de classes, sem escrita e sem Estado. As “civilizações” seriam as sociedades que “superaram” esse estágio, formando sociedades com Estado organizado, desenvolvimento tecnológico, etc. colocava as ocorrências anteriores a essa data quase que na pré-história. Ou, quando muito, numa fase de transição entre a pré-história e a história. Nessa fase de transição é que teriam se operado, entre as populações que se fixavam ao longo do Nilo, aqueles processos históricos que as teriam preparado para entrar em seu “estágio” avançado de civilização. Tais ocorrências, em alguns casos, foram chamadas de “fatores de êxito” para o surgimento da civilização. Entre tais “fatores de êxito” estariam a revolução agrícola, a divisão social do trabalho (surgimento das elites) e certos avanços técnicos e científicos, como a invenção da escrita.
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