Publicado originalmente em 1944, de grande impacto nas ciências sociais
em todo o mundo, mas praticamente desconhecido no Brasil, o livro de Polanyi
surge em nosso meio com atualidade renovada: ele se contrapõe de forma quase
premonitória à onda de pensamento econômico neo-liberal que, a partir de
Chicago e dos "Reaganautas", começa a nos invadir. Essencialmente, o livro é uma análise profunda, fortemente apoiada em materiais
de tipo histórico, do que foi a revolução liberal que varreu o mundo ocidental
no século dezenove, e quais foram e ainda são as conseqüências desta revolução
para o século vinte. A tese é que a economia de mercado, que na realidade
nunca foi tão liberal assim, foi um fenômeno específico dos novecentos,
sem muitas raízes no passado mais remoto e sem condições de sobreviver ao
século vinte. De fato, mostra Polanyi, os anos 20 e 30 de nosso século marcam o fim de
um período de "cem anos de paz" que caracterizaram o apogeu do liberalismo
novecentista. O progresso econômico que prevaleceu naqueles anos esteve
apoiado, segundo ele, em quatro instituições interligadas: o sistema de
"equilíbrio de poder" entre as grandes potências européias (que serviu de
modelo para a estratégia Kissingeriana do governo Nixon); o padrão ouro
internacional, que permitia o comércio e as transações financeiras internacionais;
o mercado auto-regulável; e o Estado liberal e não-intervencionista. A análise
conjunta destas quatro instituições mostra que o equilíbrio econômico internacional
e o progresso que ele permitiu estavam longe de ser simples resultado da
"mão invisível" do jogo dos interesses individuais, como pretendia a ideologia
econômica liberal. Ao contrário, ele dependia totalmente de um pacto político
internacional altamente intervencionista, simbolizado pela Santa Aliança,
e de um sistema financeiro fortemente integrado e coordenado, que garantia
a vigência do padrão ouro.
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