O presente trabalho situa-se no âmbito dos significados de práticas discursivas
inscritas em discursos institucionais sobre o movimento grevista dos
trabalhadores em educação no estado de Pernambuco, na “Nova República”
(1987 a 1990). São analisadas as práticas discursivas de três atores
sociais: o Governo Miguel Arraes, o Sindicato dos Trabalhadores em
Educação e a Mídia. Estudou-se o processo pelo qual relações mais amplas
de dominação política perpassam as práticas discursivas no âmbito
institucional, procurando-se observar as características e as formas do
intercurso social pelo qual o significado é realizado: as estratégias
discursivas que as classes mobilizam na luta de classes para transformar
seus projetos sociais em práticas discursivas socialmente relevantes
para a viabilização desses projetos; como as práticas discursivas se
formam e transformam no interior do interdiscurso; as posições de
enunciação ocupadas pelos diferentes locutores nos discursos sobre o
movimento grevista e a forma como tais posições determinam a
constituição de práticas discursivas. Os corpora foram
descritos e interpretados com base nos seguintes pressupostos
teórico-metodológicos: de uma análise quantiqualitativa (lexical,
textual e discursiva); das idéias sobre dialogismo, interdiscurso e
memória discursiva; do conceito de condições de produção na perspectiva
de práticas discursivas e do processo de mudanças nas práticas políticas
e econômicas na compressão de um tempo histórico no qual se situa a
evolução do capitalismo e de espaços físicos e simbólicos através dos
quais expressa e exercita seu poder; da formação de classes enquanto um
processo de capacitação para a luta pelos seus interesses. Foram
identificados e descritos: as formas de representação da diferença e da alteridade
bem como as posições enunciativas e os papéis ocupados por cada um dos
atores sociais no espaço de interlocução dos discursos institucionais
sobre a greve, na perspectiva de tempo e de espaço de uma memória
discursiva; os campos discursivos político e econômico e os espaços da
(re)produção, da cidadania e o histórico. Concluiu-se que: as práticas
discursivas do Sindicato, reivindicando o direito à participação na
gestão governamental, ao contrário do Governo, politizaram o espaço de
produção discursiva tanto do ponto de vista simbólico – pela ampliação
da compreensão responsiva da cidadania – como prático – em direção a uma
transformação das relações sociais políticas entre Estado e
trabalhadores; a luta entre o movimento grevista e o Governo não
resultou em conquistas econômicas mas favoreceu a capacitação
organizativa e política dos trabalhadores; a relação estabelecida entre
Governo-Sindicato não favoreceu a ampliação da democracia no sentido de
possibilitar a participação dos trabalhadores na administração pública; a
ação sindical não conseguiu mobilizar uma opinião pública favorável ao
movimento grevista; o papel da Mídia consistiu muito mais em articular
um jogo de poder e de controle do espaço público midiático do que
contribuir para a sua democratização; o espaço público de livre debate
não se limita, necessariamente, ao espaço midiático: ele é um espaço
fragmentado que dá lugar à existência de diversos outros espaços
públicos na vida social: profissional, associativa, sindical e popular.
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