
Mulheres, raça e classe, de Angela Davis, é uma obra
fundamental para se entender as nuances das opressões. Começar o livro
tratando da escravidão e de seus efeitos, da forma pela qual a mulher
negra foi desumanizada, nos dá a dimensão da impossibilidade de se
pensar um projeto de nação que desconsidere a centralidade da questão
racial, já que as sociedades escravocratas foram fundadas no racismo.
Além disso, a autora mostra a necessidade da não hierarquização das
opressões, ou seja, o quanto é preciso considerar a intersecção de raça,
classe e gênero para possibilitar um novo modelo de sociedade. Davis apresenta o debate sobre o abolicionismo penal como
imprescindível para o enfrentamento do racismo institucional. Denuncia o
encarceramento em massa da população negra como mecanismo de controle e
dominação. Dessa forma, questiona a ideia de que a mera adesão a uma
lógica punitivista traria soluções efetivas para o combate à violência,
considerando-se que o sujeito negro foi aquele construído como violento e
perigoso, inclusive a mulher negra, cada vez mais encarcerada. Analisar
essa problemática tendo como base a questão de raça e classe permite a
Davis fazer uma análise profunda e refinada do modo pelo qual essas
opressões estruturam a sociedade. Neste livro, tal discussão é
sinalizada pela autora por meio de sua abordagem do sistema de
contratação de pessoas encarceradas nos Estados Unidos, que já durante o
período escravocrata permitia às autoridades ceder homens e mulheres
negros presos para o trabalho, em uma relação direta entre escravidão e
encarceramento como forma de controle social.
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