Nesta narrativa, desenvolvida como uma epístola
memorial de uma jovem obrigada a sujeitar-se às ordens monacais, o
romancista leva sua pena aos recônditos das emoções e das vivências de
uma personalidade tiranizada por imposições contra as quais todo o seu
ser, no vigor da juventude, se rebela. No mesmo lance, entretanto, e em
contraposição, enquadrando as ações da personagem nas condições que a
envolvem em termos sociais, consuetudinários, morais e psicológicos, o
enredo desenrola um quadro revelador não só das práticas monásticas
imperantes, como da sociedade, sobretudo em seu estrato mais burguês, no
século que marcou a história com a Revolução Francesa. Esta criação tão
profunda e tão polêmica, nascida de uma mistificação promovida pelo
autor e por seu amigo Grimm, ultrapassa em tudo a jocosa leviandade que a
disparou, para, numa ficção genial, reunir primorosamente a voz e a
persona da jovem religiosa, com o discurso e o reclamo de uma época que
ecoa, ao mesmo tempo, os anseios mais profundos da humanidade.
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