
O livro da professora de filosofia da Universidade de São Paulo se
encerra com uma afirmação categórica: "Não há o que comemorar". Em meio
ao clima das celebrações comemorativas do "Brasil 500", o texto,
"escrito com muita cólera", é o resultado da indignação da autora frente
aos mecanismos que naturalizam e ocultam a realidade. Mas
a que realidade e a quais mecanismos a obra se refere? À sociedade
brasileira essencialmente autoritária, se contrapõe a imagem de uma
comunidade ordeira e pacífica, de uma gente alegre, ingênua e sensual,
cujo caráter festivo compensa uma suposta inação para o trabalho. Quem
nunca ouviu que Deus é brasileiro, que o Brasil é o país do futebol, do
carnaval e gigante pela própria natureza? Tais imagens fazem parte do
que Marilena Chaui chamou de "mito fundador", núcleo em torno do qual
gravitam repetidas formulações explicativas que têm por função denegar a
violência em nossa sociedade. Avessa a certas construções
intelectuais em voga, segundo as quais tudo é narrativa, sem
correspondência necessária com a realidade – que aliás só existiria
mesmo como invenção de linguagem –, a autora nos lembra que narração, em
seu sentido original, é mito2.
No livro, mito é entendido como narrativa referida ao passado, cuja
função é legitimar a origem (não a formação), o destino e a configuração
de uma realidade social.
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