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sábado, 3 de setembro de 2016

Marilena Chauí - Mito Fundador E Sociedade Autoritária
















O livro da professora de filosofia da Universidade de São Paulo se encerra com uma afirmação categórica: "Não há o que comemorar". Em meio ao clima das celebrações comemorativas do "Brasil 500", o texto, "escrito com muita cólera", é o resultado da indignação da autora frente aos mecanismos que naturalizam e ocultam a realidade. Mas a que realidade e a quais mecanismos a obra se refere? À sociedade brasileira essencialmente autoritária, se contrapõe a imagem de uma comunidade ordeira e pacífica, de uma gente alegre, ingênua e sensual, cujo caráter festivo compensa uma suposta inação para o trabalho. Quem nunca ouviu que Deus é brasileiro, que o Brasil é o país do futebol, do carnaval e gigante pela própria natureza? Tais imagens fazem parte do que Marilena Chaui chamou de "mito fundador", núcleo em torno do qual gravitam repetidas formulações explicativas que têm por função denegar a violência em nossa sociedade. Avessa a certas construções intelectuais em voga, segundo as quais tudo é narrativa, sem correspondência necessária com a realidade – que aliás só existiria mesmo como invenção de linguagem –, a autora nos lembra que narração, em seu sentido original, é mito2. No livro, mito é entendido como narrativa referida ao passado, cuja função é legitimar a origem (não a formação), o destino e a configuração de uma realidade social.

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