No
espaço linguístico e cultural da língua portuguesa europeia e
sul-americana, o vocábulo “sermões” remete ao padre Antônio Vieira
(Lisboa, 1608 – Salvador/ BA, 1697), cuja vida de pregador ecoa em nossa
memória cultural coletiva. Um sermão é uma obra de circunstância
aplicada a uma ocasião (litúrgica, da vida política, religiosa ou
institucional). O autor está fisicamente envolvido no sermão enquanto
pregador, oferecendo o corpo, a voz, o pensamento à assembleia. Uma
componente biográfica marca tanto a leitura pública (forma sui generis
de publicação) quanto a redação. Autobiográfico, o protagonista
de Sermões escreve para si sobre si, não para se comemorar mas para se
registrar, nisso condensando as questões identitárias que todos os seres
humanos se colocam alguma vez. Quem sou? O que faço aqui? Vale a pena?
Subjacente, a dúvida quanto ao valor das condutas humanas que parecem
esvaziadas dele (o cio cego, por exemplo) e, consequentemente, as
questões do suicídio e da loucura. Coisa maluca. Se a identidade
não é suficiente, então não é autêntica, aqui, a demanda por mais
identidade é feita no registro das experiências, mostrando que o
entendimento depende da forma discursiva. A reflexão prévia ao
entendimento surge não no ato, mas no ato em diferido registrado, isto
é, na obra. É no registro do físico (a cópula) que o professor de
filosofia arranca. Questionar o físico almeja o metafísico (o sentido). A
carne, feita verbo, torna-se metafísica e faz-se verso, ou seja:
poética. Laica ou sagrada, a oratória foi sempre cívica. Oratória é,
como a poesia, trabalho de linguagem.
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