A tradução de qualquer gênero literário para o sistema audiovisual requer um processo criativo. Tomamos como exemplo, o Auto da Compadecida de Suassuna, que inspirou três filmes - A Compadecida (Jonas, 1969), Os Trapalhões no Auto da Compadecida (Farias, 1987) e O Auto da Compadecida (Arraes, 2000) - e a microssérie O Auto da Compadecida (Arraes, 1999). A peça se destaca por sua estrutura técnica caracterizada por uma representação (auto) dentro de outra (circo). Objetivamos, nesta pesquisa, investigar como a estrutura da peça foi traduzida para o sistema audiovisual. Fundamentamos nossa análise, basicamente, em alguns teóricos de tradução, em críticos da obra de Suassuna e em estudiosos da linguagem cinematográfica. Verificamos que Jonas e Farias recriam uma estrutura simbólica constituída por uma representação (auto) dentro de outra (circo) e esta, por sua vez, encontra-se dentro de outra (filme). Arraes, entretanto, substitui a representação do circo popular por uma audiovisual (o filme A Paixão de Cristo dentro da microssérie e do filme Auto da Compadecida). Concluímos que Jonas agrega ao seu texto elementos típicos das manifestações artísticas populares, reescrevendo um universo e uma linguagem mais mítica e fincada no imaginário sertanejo. Farias cria um filme mais comercial, mesclando elementos da peça ao contexto da indústria cultural, a partir da comicidade dos Trapalhões. Arraes transporta para suas traduções a tecnologia da linguagem cinematográfica de seu tempo, reescrevendo o imaginário sertanejo na perspectiva dos meios de comunicação de massa.

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