O autor tenta mostrar que Ressurreição, romance publicado por
Machado de Assis em 1872, não apenas diverge em parte do gosto literário
vigente na época como instaura uma nova temática na tradição romanesca
brasileira, que era, então, ainda bastante incipiente: a dúvida. Segundo o pesquisador, por meio de uma técnica que ao mesmo tempo
explica os expedientes narrativos e conta a história do protagonista, o
narrador consegue fazer confluir para o campo da incerteza tanto o ponto
de vista quanto a perspectiva do herói. Há por isso, em "Ressurreição", certa "suspensão da realidade", que
para o pesquisador afasta a obra das abordagens convencionais do romance
urbano do romantismo brasileiro e a aproxima do romance mais moderno
que se fazia na Europa. Ali, essa modalidade literária adquiriu status
de gênero burguês por excelência, por expressar os valores, os costumes e
os anseios dessa classe e ainda servir como vigoroso instrumento de
análise da nova civilização do capital. Do mesmo modo, para o autor, o romance de Machado, ao redefinir seus
próprios procedimentos estruturais e reelaborar sua temática,
sofisticando a percepção da realidade, logra promover uma densa análise
crítica dos indivíduos e de seus interesses subjacentes às interações
sociais. É, neste sentido, um dos embriões dos grandes romances da fase
madura do escritor carioca.
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