As transformações no discurso do personagem Paulo Honório durante o
desenrolar do romance “São Bernardo”, de Graciliano Ramos, é o centro
deste estudo, que tenta evidenciar que elas ocorrem concomitantemente às
mudanças ocorridas na caracterização psicológica do protagonista. Para
desenvolver tal análise, o autor se utiliza das formulações teóricas de
Mikhail Bakhtin (1895-1975), para quem a prosa de ficção tem como eixo
norteador uma concepção dialógica tanto das ideias quanto da linguagem
veiculadas pela narrativa. A partir das definições de Bakhtin, o
pesquisador demonstra que o discurso inicialmente convicto e manipulador
do protagonista - predominantemente “monológico” – vai se modificando
com a crescente interferência da personagem Madalena, o “outro” que
porta uma consciência independente e que, aos poucos, acaba tornando o
discurso de Paulo Honório, e a própria narrativa do romance,
acentuadamente “dialógicos”. O autor identifica os elementos e
estratégias discursivas que caracterizam essas duas instâncias no texto,
interpretando a interdiscursividade, que se instaura nesse processo de
mudança, como uma representação do conflito entre ideologias sociais
opostas, que em vários trechos Graciliano trata usando a técnica da
ironia, neste caso com forte conotação crítica.
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