
Este é um livro feito com as cordas das liras, com as raízes culturais africanas. Sabemos que, quando a África acordou o mundo com o som dos seus tambores silenciosos, os Griots surgiram como poesia. E por que não dizer que os tambores, os batuques, as batidas de alfaias, que sonorizam o ganzá místico, são representações líricas da memória poética. O rito da voz afrodescendente é melodia. Vale lembrar também a importância dos povos Bantos e Malês, além das influências musicais do Congo, para o legado da efervescência musical dos Griots. Cantar feito um Griots é mover o instante de uma peça sonora em seu momento de improvisação. Pela canção, a música africana é metáfora dos instrumentos. Diz uma lenda que, antes da chegada dos colonizadores na África, os poetas compositores retinham a música a partir de seus lábios grossos. Esse talvez tenha sido um dos poucos momentos em que a poesia tornou-se musical sem alijar a palavra cantada. É certo que separamos, por muito tempo, indevidamente, palavra e música. Se a palavra é misticamente uma espécie de profecia do fogo, a música é uma espécie de matemática dos sentidos. Toda palavra é orquestra de som que se doa a partir do ouvido da memória de cada comunidade.
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