Seriam os atos do homem, às vezes os mais cruéis, necessários para
elevá-lo à condição de imagem e razão? Em A maçã no escuro , Clarice
Lispector faz crer que sim, transformando o atordoado Martim em um novo
homem após ter supostamente assassinado a mulher. Fugindo do crime,
Martim acaba descobrindo-se como homem, desprezando os antigos valores
estabelecidos em sua vida. Na corrida por uma nova existência, ele se
revela numa outra condição. Sua fuga, em vez de isolá-lo, remonta à
criação do homem, de um novo ser surgido do nada. A narrativa, próxima
da criação bíblica, em vez de julgar os personagens culpados ou
inocentes, faz deles aprendizes do mundo, onde cada etapa funciona como
uma gênese de um ser recém-criado.

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