Em O Tempo, Clarice Lispector faz aparições. A presença da escritora,
como indica o curador Roberto Corrêa dos Santos, mostra-se em forma de
frases, enunciados, sensações e pensamentos. O material foi
cuidadosamente escolhido em parte da obra da grande escritora. Em um
prosseguimento ao que havia iniciado em As Palavras(2013), desta vez o
curador coleta frases de Clarice em Minhas queridas, Cartas perto do
coração/Fernando Sabino,Clarice Lispector, Laços de família, Felicidade
clandestina, O Lustre, A cidade sitiada e A maçã no escuro. O resultado é
uma coletânea que retrata, acima de tudo, o modo como pensava Clarice,
seu senso de humor refinado e sagaz, suas fraquezas e franqueza. Enfim,
sua forma de ver o mundo apresentada por meio de sua melhor aptidão: o
texto. “Cheguei mesmo à conclusão de que escrever é a coisa que mais
desejo no mundo, mesmo mais que amor.” Ou ainda: “Escrever é respirar
dentro da frase. É por algum silêncio nas linhas como nas entrelinhas
para que o leitor possa respirar comigo, sem pressa, adaptando-se não só
ao seu ritmo como ao meu, numa espécie de contraponto indispensável.” O tempo pode ser lido de forma aleatória, colhendo uma frase aqui ou
ali, mas alguns capítulos tornam-se ainda mais interessantes quando
lidos de maneira linear. Partes de algumas obras são tão indissociáveis,
que o curador optou por um recorte mais longo, como se fossem histórias
curtas. Os capítulos estão divididos por livros. As frases foram
colhidas na obra que nomeia o capítulo. Não se trata de um resumo, mas
de escolhas que representam o fervor das ideias de Clarice. Como
descreve o curador: “Em O tempo, a alta Clarice vai além de todo
espanto, além de toda beleza: atinge o inatingível, o sobre-humano.” A coletânea é indicada tanto a quem está tendo um primeiro contato com
Clarice Lispector quanto para aqueles leitores-especialistas, que irão
recordar passagens repletas de sabedoria verbal, plástica, afetiva,
filosófica, poética e artística.

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