Contra a tradição do ornamento e
de uma retórica do excesso (hipérboles, adjetivação
abundante), Cabral propõe uma espécie de poética
do mínimo - vocabulário restrito e obsessivo, desconfiança
frente aos “mistérios” do verbo. E, numa relação
especular, essa poesia esvaziada reflete a aridez do sertão
nordestino que ela incorpora - poesia do menos sobre um real desfalcado.
Benedito Nunes é um dos ensaístas mais bem equipados que possuímos. Já são bem
conhecidos os seus estudos sôbre outros poetas, como Fernando Pessoa ou
Mário Faustino. Aqui, nesta obra, consuma uma visão completa do corpo de
poemas de João Cabral de Melo Neto, exercitando-se no exame minucioso e
exaustivo de alguns dêles - nada de meras divagações impressionistas ou
de elogios retumbantes sacados do balaio do acaso, porém método,
técnica, seriedade, atualização com os processos de dissecar. Também o
saber e a modernidade do crítico não se apóiam tão-somente na
atualização dos métodos, no simples interêsse de, parafraseando o grande
poeta Dylan Thomas, "espraiar encantos em palcos de marfim" a propósito
de qualquer autor - que termina por ficar em segundo plano, ofuscado
pelo autopavoneio do ensaísta. Residem na capacidade de escolha, de ver o
objeto estético.
O título da obra faz referência ao sofrimento que Severino passa
durante a viagem, relatada através de um poema dramático que fez de
João Cabral de Melo Neto um dos poetas mais prestigiados da Literatura
Brasileira. Em sua viagem Severino se depara com situações de morte, de
desespero, de miséria e fome, causadas principalmente pela seca. O livro
faz também uma crítica ao descaso dos governantes quanto a esta
situação, vivida por tantos outros nordestinos. Encontra situações como a dos dois homens que carregam um defunto
até sua última morada, pois este havia sido assassinado por expandir um
pouco suas terras, e assim vai tendo seus encontros com a vida e com a
morte. Em outro momento houve uma cantoria, e ao aproximar-se percebe
que se tratava da encomendação de um corpo. Pensa algumas vezes em
interromper a viagem e voltar, pensa que poderá não conseguir chegar ao
destino pretendido, ou pensa ainda em interromper a viagem e procurar
algum tipo de trabalho pelo meio do caminho. Ao pensar nesta
possibilidade de trabalho, descobre que os únicos que poderiam lhe dar
algum dinheiro seriam aqueles de pessoas que ajudam na morte, como
médico, farmacêutico, coveiro, rezadeira, etc. Vê-se como um inútil,
já que nada daquilo sabia fazer, e para o que sabia fazer não encontrava
nenhum trabalho. A morte é tratada como algo vulgar, e as profissões que lidavam com a morte como um negócio lucrativo. Cemitérios, coveiros, assassinatos, tudo leva Severino ao desespero
e à expectativa de seu próprio fim, já que ele mesmo não conseguia
encontrar trabalho. Chega a conclusão de que a realidade que encontra
não é diferente da que já conhecia no Sertão. Por fim, revela a intenção
de suicidar-se, pois já não vê diferença entre a morte e a vida. O
nascimento de uma criança, contudo, é o fato responsável pelo renascer
da esperança de Severino. O autor utiliza uma linguagem poética, porém concisa, engajada,
buscando mais o concreto e o visual do que os sentimentos. O
livro é considerado uma reconstrução dos autos medievais,
porém retratando a realidade atual das populações nordestinas.